Que brotem flores

sexta-feira, maio 05, 2017



Oi, Pai! Vim aqui apenas te agradecer pelas flores que me destes.
Quando paro pra pensar, naquele tempo eu simplesmente não entendia o que estava acontecendo. Não compreendia minha própria dor!
Algo que nunca me preocupava, que eu mesma achava que nunca iria acontecer comigo, que eu pensava não me importar ... aconteceu. E eu? Estava em pedaços.
O que eu julgava não sentir, sentia até de mais - talvez por isso não tivesse percebido.

Não me lembro bem como foi o sentimento - Você, Pai, teve a bondade e o cuidado de me fazer esquecer - mas me lembro daquele meu eu. Lembro de como estava vazia e apagada minha imagem - refletindo o buraco que haviam deixado em mim. Me lembro das piores noites, e de todos os dias em que chovia de mim.
Me lembro do final triste de algo que sequer tivera um início propriamente dito. "É isso o que eu mereço?" pensava. "Não sou boa o suficiente, não mereço algo bom!", indagava a alma daquela versão de mim. "Não mereço sequer um começo feliz, quem dirá um final assim!".

A realidade de ter uma confiança - já não tão concreta - quebrada, é insuportável. A dor, regada aos poucos, veio à tona de repente. E eu estava desmoronando.
Era sem fim o abismo no qual eu fui jogada. E escuro. E frio. E doloroso - muito. E eu não tinha onde me segurar: A queda era livre - e inevitável.
O mundo inteiro caía ao meu redor, via tudo o que imaginei, acreditei ou sonhei despencando em uma velocidade ainda maior que a minha. E eu não tinha chance contra aquilo. Sozinha, sou completamente fraca. E eu estava sozinha.

"Quando o mundo cai ao meu redor, Teus braços me seguram. Quando o mundo cai ao meu redor, És a esperança pra mim. Quando o mundo cai ao meu redor, e as forças se vão ... encontro abrigo em Ti. Segura-me!"
Foi o que ouvi alguém cantar. Foi o que vi alguém dançar. Foi o que senti. 

Segura-me!

E Você, Pai, já estava me segurando, eu só não sabia disso. Não sabia que as coisas iam mais rápidas ao meu redor porque elas não eram minhas - aqueles sonhos não eram meus! Minha vida segurava a minha mão, e eu não percebi isso na hora. 
Quando O vi, deixei que me pegasse no colo e cuidasse de mim. Você desceu até aquele abismo escuro e frio, só para me buscar. Para me levar à Tua casa. Para todos os dias me amar. Aos poucos, a dor foi passando. Me deixei ser tratada por muito tempo. Me deixei ser moldada.
Sou muito grata. 
Você, Pai, me resgatou. Para ficar perto de Ti, e entender o que é o amor de verdade. Para amar e ser amada - desta vez sem erros, sem dores, sem temores.
E o que havia de quebrado em mim - praticamente tudo - Você juntou. Dos meus cacos, me fez de novo. 

Me tornei um vaso forte, plantou em mim o amor. 

Brotou flor.  


Por Anna Miranda

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